99%
CONTRA 1%
Faz muito tempo
estou afastado das postagens neste blog, mas nunca é tarde para retomarmos à
pena e produzirmos, principalmente, quando estamos obstinados por respostas. Estamos
certos de que, tal respostas, não mudarão em nada nossas vidas, mas deixam-nas
com outro aspecto: tornar mais feliz nossa trajetória no mundo. Há de se ter um
motivo para existirmos. Portanto, já no título do artigo, discutimos a questão
99% contra apenas 1%.
A questão dos
99% é absolutamente negativa. A questão do 1% é a almejada, a que desejamos
seja verdadeira e absolutamente positiva. Complicado? Nem tanto. Parafraseando Caetano
Veloso, na fabulosa música intitulada “Sampa”: “tu és o avesso do avesso do
avesso do avesso”. Não é tanto uma metáfora para pontuar o diferente, mas em
nós diz que somos resistentes, inconformados, vanguardistas enquanto ser
comum na existência. Jamais nos conformamos com os nãos que nos chegam, apesar
de aceita-los como parte do espetáculo da vida.
Quando me
deparei com a possibilidade dos 99% negativos dentro da possibilidade daquilo
que julgamos investigar como verdadeiro, rimos muito felizmente. Não pelo fato
de aceitarmos os 99% como resultado final e nos conformarmos. Estranho não é
mesmo? Estranho nada, temos 1% de chance e vamos nos concentrar nele. A única
resposta negativa que esperamos é a possibilidade de 1% positiva, ademais, a
investigação vai agregar muito mais conhecimento e redundar em muito mais
empoderamento histórico e muitos outros resultados.
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| Retrato original de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, pintado por Euclásio Penna Ventura, na segunda metade do século XVIII. |
Bom, vamos a
questão destas porcentagens díspares que surgiu em nossa última visita às
cidades históricas do estado de Minas Gerais: Sabará, Ouro Preto, São João Del
Rei, Mariana, Congonhas do Campo, Diamantina,
Tiradentes. Na terra dos Inconfidentes tivemos muito contato com o Barroco Mineiro
e as fantásticas obras do português Manoel Francisco Lisboa e do mulato, seu
filho, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho; das fantásticas pinturas com
perspectivas do Mestre Ataíde. Ficamos,
evidentemente, fascinados com o conjunto arquitetônico das cidades mineiras e
suas obras de arte.
| Foto colhida 26/01/2018 em Congonhas do Campo. |
No terceiro dia,
dentro dos 15 dias que tiramos, exclusivamente, para a visitação do patrimônio histórico
mineiro, despertamos, como se ascendesse uma luz em nossa mente, para o fato do
nome do Aleijadinho e seu pai português, Antônio Francisco Lisboa e Manoel Francisco
Lisboa, respectivamente. Acompanhando a
atuação de guias pelas cidades que iam destrinchando dia a dia a vida desse
ícone máximo do barroco no Brasil, despertamos para o fato que Aleijadinho era
mulato e filho de uma preta forra de pronome Isabel. Seu pai, Manoel Francisco
Lisboa era português, nascido nas imediações de Lisboa... Ora, meus ascendentes
paternos, portugueses igualmente, eram do mesmo apelido Francisco, como o pai de Aleijadinho. Dissemos a uma amiga que nos
acompanhava, em tom jocoso: “o Aleijadinho é meu parente!” Rimos. Como não rir
diante de tal sentença? Mas não dissemos que era por descendência direta do
Aleijadinho. Éramos parentes por parte do pai dele, em algum grau de ascendência.
Nossos pentavós, nascidos no concelho de São Victor de Braga, Portugal
chamavam-se Manoel Francisco e Mariana Francisca. Quando o filho destes passou
ao Brasil, Domingos Francisco, adotou como complemento geográfico Braga, então,
passou a atender como Domingos Francisco Braga. Bom, o pai do Aleijadinho,
Manoel Francisco Lisboa, adotou o Lisboa, por ter nascido na freguesia de
Odivelas, pertencente a esta cidade. Em Portugal eram a família Francisco, como
eram nossos pentavós.
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| Mapa de Portugal antigo. Colorido à mão. Edição Mallet.Este mapa possibilita entender a localização de Lisboa ao centro de Portugal e Lamego, a Norte. |
Caso resolvido?
Não! Em breve pesquisa descobrimos o livro de Marcos Paulo de Souza Miranda,
lançado na ocasião do bicentenário de Aleijadinho: “O Aleijadinho revelado - estudo
histórico sobre Antônio Francisco Lisboa”. Belo Horizonte: Editora Fino Traço,
2014. Apressamo-nos em adquirir o exemplar. Foi-nos extremamente difícil, mas
como trabalhamos as impossibilidades como desafios, as coisas fluem
perfeitamente. No outro dia, como num passe de mágica, o livro estava em nossas
mãos. Devoramo-lo imediatamente, entre uma visita e outra a cidade de Congonhas
do Campo, cidade esta que tem maior conjunto escultórico do artista: além dos
12 profetas em pedra sabão temos 66 esculturas em cedro da via sacra. É para ficar
impressionado e encantado. Defendemos as revelações de marcos Miranda, acerca
da vida de Aleijadinho, pois ele nos apresenta a data de nascimento em 6 de
junho de 1737, em detrimento de outras datas tidas como 1730 em meses de maio
ou agosto. O menino provavelmente chamou-se Antônio – e essa é uma conjectura
nossa – por ter nascido no mês dedicado a esse santo. Lembrem-se do mês junino
e do dia de Santo Antônio celebrado no dia 13 de junho.
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| Livro escrito por Marcos Paulo de Souza Miranda. lançado no bicentenário de Aleijadinho (1814-2014). |
Mas o livro
trouxe as respostas certas? Não! Com pesar. Há ainda os 99% puxando nosso feliz
1% para o lado negativo. Vejamos: a cidade natal dos meus pentavós é Braga, que
fica no norte de Portugal e o pai de Aleijadinho nasceu nas imediações de
Lisboa, que fica ao centro. Então, qual a possibilidade de que, um Francisco
nascido a norte seja parente de um outro Francisco nascido ao centro no século
XVIII? 99% de nãos! Um horror. Mas o 1% nos diz que devemos ser perseverantes,
pois o casamento dos avós de Aleijadinho, Manoel Francisco e Catarina Antunes em
1689 aconteceu nas imediações de Lamego, portanto, a norte. Eram praticamente
vizinhos de nossos pentavós, Manoel Francisco e Mariana Francisca. Sem contar que, muitos emigrados para o Brasil vinham da região do Minho, a norte. No caso, os meus Franciscos emigraram, inicialmente, para Pernambuco (Nordeste) e os Franciscos de Aleijadinho para Minas Gerais (Sudeste). A particularidade é que foram em datas coincidentes, findas do séc. XVII para o séc. XVIII. Mas Francisco é um apelido comum na Portugal medieval, seja por serem daqueles descendentes dos Francos, que vieram do lugar que se tornou o estado França, seja pelas homenagens ao santo de Assis, São Francisco, nascido nos anos 1200.
Já podemos dizer
que somos parente de Manoel Francisco Lisboa, o pai de Aleijadinho. Meu 1% de
chance está garantido. Quem quiser contestar que faça as vezes de investigador
histórico. Oferecemos o livro de nossa autoria para principiar um trabalho
elucidatório: “Casa dos Braga de Brasil: freguesia de São Victor, arcebispado de Braga – recuperação de 400 anos
de história familiar, 2015”.
Continuamos a
investigação.


