A pergunta nos chega
com um tom levemente ameaçador ou quem sabe, exageradamente. Quantas vezes, ao
longo de nossas vidas, não ouvimos pessoas influentes, dentro da realidade que
lhes cabem, usarem suas posições dentro da sociedade para intimidar pessoas ou
influencia-las para obter vantagens? Sou do tempo da Ditadura militar. Quando
nasci ela tinha apenas três aninhos de idade, mas uma abrangência influenciável
bem maior que os efeitos de organização que ela mascarava no país. A Ditadura
era um verdadeiro dragão de sete cabeças, ameaçador, arrasador e cuspidor de
fogo. Quem era alienado e ventríloquo era imensamente feliz.
Quando falo da
realidade individual, refiro-me às ameaças acontecidas nos lugares mais
inusitados: por assento na poltrona de um ônibus, no usufruto dos espaços
públicos, concursos públicos, aluno ameaçando professora por ter as costas quentes,
segurança pública apenas para quem tem proeminência, emprego e aposentadoria
para quem não necessita... E por aí vai. Todas essas são algumas distorções que
pudemos assistir ao longo de 47 anos de vida, justamente por parcelas ínfimas
que exageram na influência.
Com quem você pensa que
está falando? O pensar e o falar no sentido que me refiro não tem a mesma
conotação de tráfico de influência e que tais. Trata-se do conhecimento
histórico que diz respeito ao conhecimento histórico sobre seu nome de família.
No meu caso, o clã Braga. Neste caso, e apenas neste caso, saber de quem se
fala é ter certeza de sua origem, de sua trajetória no momento inicial da
colonização portuguesa em nosso país até os dias atuais. Saber os caminhos de
minha família pelo Brasil é muito mais significativo que qualquer tesouro. O
meu castelo é meu nome através dos tempos!
Você que,
inadvertidamente resolveu ler meu texto e viu nele algo interessante, sabe quem
foram seus avós, seus bisavôs, seus trisavôs ou isso não é interessante? Muitas
respostas, pelo que somos hoje, podem ser saciadas mediante o conhecimento
cultural sobre nossa família. O modo, o agir, o falar, pode ter uma resposta no
sentido cultural linear da família a que se pertence. Saber de si mesmo e de
sua família é ter a certeza do pertencimento, e da continuação do que foi
significativo e das permanências com as roupagens das novas mentalidades.
| Brasão da família Braga, mas será que posso usá-lo como brasão próprio? Será que sou descendente de Gonçalo Esteves de Braga, que fundou a família Braga em 1269? |
Nosso fenótipo é ser
branco, às vezes de olhos claros, às vezes de cabelos castanhos, às vezes
pardos... Nem tudo é tão linear, tampouco ao pé da letra. Às vezes somos mais
morenos, com olhos negros, cabelos encaracolados. Somos a mestiçagem própria do
país, da pátria amada Brasil. O que temos de único e exclusivo é nosso nome:
Braga. Geralmente, a posição social define o orgulho familiar, como se o fato
de ser rico colocasse o nome na maior referência. Se tal família for emergente,
nem se fala dos despropósitos do seu posicionamento diante da sociedade a que
ela se apresenta, salientando mais a aparência que o conhecimento em torno de
sua própria existência. Conhecimento para mim é mais importante que qualquer
outra coisa venal.
| Vovô Octavio Braga, nascido em 1909, no Estado do Ceará, militar, lavrador e dono de farmácia na década de 60. |
Antes de mim, meu pai,
antes do meu pai, meu avô, antes do meu avô, meu Bisavô bis (dois) - segundo
avô... Seguem: Trisavô tri (três) - terceiro avô; Tetravô ou Tataravô tetra
(quatro) - quarto avô; Quinto avô no lugar de pentavô; Sexto avô no lugar de
hexavô; Sétimo avô no lugar de heptavô; Oitavo avô no lugar de octavô; Nono avô
no lugar de nonavô; Décimo avô no lugar de decavô. Por hora me contento com os
primeiros imigrantes (hexavós) chegados de Portugal, da freguesia de São
Victor, arcebispado de Braga que chegaram ainda nos 1700, no Estado do Ceará.
Saber nomes e datas ao longo dos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX e XX é quase
como poder exibir um diamante lapidado. É uma conquista! 400 anos de história
familiar não é pouco.
Não é raro encomendas
de pesquisas que esclareçam uma origem familiar que saliente tratar-se de
nobres, e nesta, descobrir personagens com titulações conseguidas de maneira
exemplar. Quando relaciono os feitos heroicos de um antepassado, na minha
árvore genealógica, digo que eu mesmo sou a personificação daquele nome hoje.
E, se formos buscar do momento da colonização do Brasil até hoje, provavelmente
encontraremos algum personagem que mereça um destaque, enfatizando que, na
atualidade, descender de um escravo não é nenhum demérito, muito pelo
contrário.
A história de uma
família seja ela acontecida nas senzalas ou nas casas grandes têm a mesma
importância, no sentido da sobrevivência e das permanências, com relativização,
tradição, orgulho e fundamentação. Valbarbalho apud em Geneall (2014) esclarece
para a família Furtado de Mendonça um ponto da busca por nobreza:
(...)
Não pensem que estou mencionando as nossas origens nobres porque considere isso
algum privilegio. A verdade eh que, com a capacidade reprodutiva que Deus
Concedeu ao ser humano, o provável eh que todos tenhamos muitos ramos
ascendentes, descendentes da nobreza. E se alertarmos para o fato de que tem os
indígenas e os africanos tinham suas nobrezas, nos somos
triplo-nobre-descendentes. Isso eh um privilegio que compartilhamos com todos.
Mas este não eh um assunto que deverá excitar os neurônios dos Furtado de
Mendonca, por agora. A menos que também descubram que são Pimenta de Carvalho
(não paginado).
Tudo bem, eu também sou
da família Furtado de Mendonça. O que me alimenta na verdade é a história.
Neste sentido, o conhecimento é minha maior titulação. Se eu conheço minha
trajetória eu tenho tudo que é importante para minha permanência.
![]() |
| Francisco Xavier de Mendonça Furtado que foi todo poderoso governador do Pará, irmão do Marquês de Pombal e fundador de Macapá. |
Então, agora quando eu
sentenciar, “com quem você pensa que está falando?” eu quero apenas deixar
claro que sei mesmo da minha origem e os nomes da minha originalidade. Esse é o
meu tesouro maior, sem contar às proeminências que tenho a destacar nesta
trajetória histórica, mas por hora, ficamos aqui.









